Meses e meses de gestação
Aumenta o peso, a pressa, a pressão
O corpo cansa
Cresce o vazio peito.
Fragilidade é defeito
E a vida parece querer explodir
Por cada poro há algo a sair.
Melhor que venha naturalmente
Ou cortando a carne, independe
É só a fala de quem não sente
E desconhece a força
Daquelas que o mundo repele:
Dandara, Carolina, Marielle
E então mais um grito de dor:
Todos a clamar o rebento
Bem melhor se nascido varão.
Mas antes que se consagre o louvor
É preciso estar claro, senhor!
Que contem outra história!
Sua falácia será em vão
Porque para vir ao mundo
Para ver a luz do dia
O poema não tem outra forma
Que não nascer
Da feminina poesia.
[nada de novo]
Não era um texto pra conter dor. Mas ela atravessa cada palavra. Não é porque a dureza do cotidiano forma uma carcaça pétrea sobre muitos dos corpos femininos que cada ato, cada gesto impregnado de machismo não venha a atingir feito afiada lâmina sobre a fina membrana que recobre a história que não é minha, é de cada uma, até das que não assim percebem.
O encantamento parece ser falso adorno. Pétalas e pétalas de desconstrução, de discurso, de conhecimento aparentemente profundo de uma imensa sorte de saberes dentre outras frágeis qualidades que, desfolhadas uma a uma revelam os velhos espinhos que tanto machucam, marcam, e que nunca deixaram de ali estar. Um veneno sutil que aguarda o momento de imobilizar. Gosto amargo que insiste em se provar necessário e curador.
Não devia, não podia causar dor posto que não há nada de tão novo assim. Mas é o que a natureza da existência parece causar. É o que a vivência parece querer generalizar.
Não há retrogradação planetária que justifique. Não há mau entendimento, nem ruído de comunicação. É a clara voz do machismo: alta, grave e em desafino que brada diante da primeira fala que se contrapõe, da pergunta astuta que encurrala.
Está acordado o monstro que dispara palavras em tom odioso de tal forma que quase se materializam em lanças diante de mim. Repetida e recorrentemente.
É como se fosse possível visualizar o brilho raivoso nos olhos do animal acuado cujo sangue sobe à cabeça inflando-lhe as veias e despindo cada uma das vestes que passam a deixar visível o esquálido corpo de aparência rota e desprezível.
Não restou muito além da roupa enxovalhada que cheira mal e distancia do corpo, das palavras e das mãos, cuja força fez esquecer o som bonito e sagrado que um dia tirou de seus velhos tambores.
Falo de velhos, centenários, milenares e não menos contemporâneos. Insistentes realejos que repetem a cantilena que nos acusa de loucura e histeria. Que nos culpam por ataques mensais desferidos pelo desequilíbrio hormonal e que a lei ousou proteger. Que banaliza a dor coletiva irmãmente dividida.
Todo o resto é piada.
E se não rio, é porque há um manancial que me mantém na margem que resiste. Que se ouso o mergulho, mesmo cansada, as braçadas conscientes não hão de me permitir afundar. Porque entre água, suor e lágrima, basta que eu me saiba nadar.
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