Livrado o flagrante, pôde,
enfim, postular-se diante da própria consciência para assumir o delito: sentira
saudades. Cabisbaixa, de voz estremecida e contorcendo os dedos das duas mãos
como se debulhasse um rosário, admitira o que em outros tempos se definiu por
crime.
Sequer esperava o
interrogatório: explicava resignadamente cada passo daquele calvário
intempestivamente cometido.
Disse que acordara
normalmente e lembra-se de ter sorrido diante do espelho enquanto escovava os
dentes. Era domingo, o que permitiu um pouco mais de tempo entre as cobertas
com o cheiro fresco de lavanda ao qual já se acostumou. Não havia planos e a
lembrança veio de súbito. Aprendera desde pequena que as ferramentas que
constroem o erro estão quase sempre à mão e cedeu às facilidades.
Em minutos estava entre
fotografias e cartas amareladas, embebidas em um perfume antigo, que em nada
parecia com a lavanda clara, aquele odor que ousa saudar o dia. E o cheiro não
lhe entrava pelas narinas. Reconstituía-se amplo, aguçando outros sentidos,
como que “tentando recompor, com tantos estilhaços dispersos, o espelho
quebrado da memória”¹. Num instante estavam recolhidas as lembranças,
enfileiradas de si, como se em postura militar, dessem satisfação da sua
existência, ainda que envoltas em versos perdidos de uma canção que jazia no
escuro porão do esquecimento.
Cada detalhe confesso
conferia-lhe ares de frieza, mas nada mais eram que puro exorcismo. Precisava
desse segundo contato, de ouvir de sua própria boca cada requinte do seu crime,
pois era dali que sairia sua sentença.
Não houve sangue, nem
qualquer outro vestígio do que fora cometido naquela manhã. Precisava dizer
também, em hora da sua confissão juramentada, que não houve lágrimas, tampouco
arrependimento. Também não manifestou nenhuma intenção de desculpas ou
retratação.
Sabia que seria absolvida.
As últimas frases já não sofriam o vacilo da voz e as mãos já repousavam
calmas, espalmadas sobre os joelhos. Os olhos fitavam o reflexo do espelho,
entendiam com clareza o recado daquele silêncio solícito e eram capazes de
prever um novo sorriso.
Estava livre. Inclusive
para recair. Na verdade, fez-se lei. Dali em diante estava permitido sentir
falta, saudade e até amor, resguardadas as ressalvas que credenciam qualquer
legislação que se preze: sem endereço, sem rosto, sem signo zodiacal. Era a
saudade ganhando o sonho como sinonímia. Tudo subscrito pela consciência. E
confirmado, pelas folhas de calendário que se sucederam.
¹ trecho do livro "Crônica de uma morte anunciada" - G.G.Márquez
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