Hoje eu tenho dificuldade em chorar. Não que as coisas não me emocionem, mas daí até transbordarem em lágrimas, seriam necessárias outras reações.
Na minha vida prática isso não é de um todo ruim. Muitas vezes pareci um arquétipo de filha da dona das águas, precipitando em cachoeira quase tudo o que desviava o curso óbvio do meu rio de emoções.
Não transbordar, no entanto, não significa a ausência de turbulência dessas águas. "A Vida Invisível", por exemplo, foi corredeira caudalosa dentro do meu corpo. Assim mesmo: físico.
Num enredo arrastado por décadas, fui mastigando o sempre amargo pedaço da vida que é a feminina. Não importa o papel: a mãe, a irmã, a amiga - é sempre a ela que estão reservadas as escolhas mais difíceis, as consequências mais duras, as mais penosas punições.
A eles sempre o lugar decisório, ameaçador, arbitrário e impune. Mesmo inseguro e exercendo o controle sob a égide da chantagem emocional, é sempre o macho virtuoso o responsável pela da família e qualquer movimento pela realização do sonho feminino, um escândalo.
Fútil Eurídice.
Maldita Guida.
Mulher de cais, determinada pela ânsia de amar e ser feliz, tornava-se indigna das indeléveis instituições: casamento, família, sociedade.
Duas almas, duas posturas, métodos diversos de perseguir um sonho fracassado: ser feliz.
E assim, de frente para mais de duas horas e algumas décadas de opressão, que certamente aguardaria a cada uma de nós do lado de fora daquela sala, o choro que não me subia aos olhos revirava convulsionante em cada milímetro do meu abdome, como em estado de atenção e alerta, dando o recado certeiro: acomodar-se não é permitido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Palavras são bem-vindas.