Vou perseguindo metas. Já me disseram não ser metas. Não quantifico, logo não posso medir, logo não tenho parâmetro e nem tão logo não poderei avaliar.
Mas eu sinto.
Duelo com a preguiça. Distraio o ócio, meu tão caro ócio. Cutuco a disponibilidade e uma porta entreabre.
Vez ou outra necessito de borracha. A falta de costume exige repensar, refazer. Quem sabe volto a me expor à tinta, cravo nos teclados e convido outros olhos.
Por enquanto eu sinto.
Na verdade, nem sempre.
Sob recomendações de "cuidado, gatilho!", entreguei-me à "História de um Casamento" numa noite de um domingo tedioso, frustrado dos desejos que tive para ele. Aquela sensação-prejuízo de tempo perdido e até de uma solidão espinhenta, persona non grata, diferente da eloquente companheira, sabedora de mim e que é o avesso de qualquer fantasma.
A verdade é que não senti nada.
Aquele amontoado de tempo e de vida perdida mais parecia um lugar-comum, cansativo e óbvio, da natureza de tudo o que é perecível e quase merecido.
O amor perece, fenece, falece. Tranquilo. Alguns poucos soluços, outros tantos lenços e lençóis. E fim.
A cabeça não corresponde.
O coração não responde.
E ainda assim o pensamento não para e o sangue percorre, irriga, oxigena e conduz ao que é necessário e inevitável: o caminho.
O preço das escolhas é alto, mas com o tempo se paga e a minha frieza aguarda até algum troco.
Talvez eu esteja diante de coisas mornas esperando que alguma febre me tome de súbito, me faça delirar e assim justificar alguns devaneios a que eu decida me permitir.
Permito-me - sem perder de vista a lista - a conhecer coisas novas. Rubel canta enquanto escrevo. Mas não passou da febre inicial provocada há algum tempo por "Quando Bate uma Saudade". Ilusão. A saudade ilude. Vive por gerações fincada ao seu lado fingindo-se companhia, tola e pueril, que arranca sorrisos sob a capa de parecer sempre boa, a despeito de tudo.
Venho esfriando deliberadamente para as saudades românticas. Para as lembranças, não. Anoto-as na mente como os bons filmes que já vi. O problema é que aqui e acolá a memória me trai e esqueço que já vi. E lá estou eu entre a sensação familiar e o incômodo de que posso estar perdendo tempo e vida com histórias requentadas.
Às vezes a curiosidade me conduz de novo até o fim. E tem sempre um fim. Isso é certo. Às vezes a sombra gélida me vence e paralisa. Não consigo interromper.
Até o fim.
(janeiro de 2020)
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