São tempos que contrariam todas as previsões, suspendem planos, recriam necessidades e prioridades, recalculam atenções.
Há dias em que é difícil dimensionar o desejo, definir a querência. Do que você está precisando hoje? Abraços? Companhia? Liberdade? Pode ser tudo junto ou algo que o valha. Pode ser também algo novo e inusitado que surge na janela magicamente, feito presente sob a árvore de natal que tantas vezes li nos contos.
E lá estava: colorido, estrondoso, arredio e já saiu batendo asas por toda a casa até encontrar seu cantinho na varanda. Acho que no meu coração também.
Reverteu o eixo do dia. Os problemas se avolumavam, mas ele era um "mas", o entre vírgulas, o suspiro no meio de toda intempérie. Houve de tudo. Mas houve ele, sobretudo.
Durou o suficiente para que as outras coisas se reordenassem. E deixou o recado assinado sobre a impermanência, sobre o movimento da vida que não permite que as coisas fiquem cômodas aqui dentro.
Uma fresta de janela aberta, um vacilo na atenção e um outro ensinamento: assisti com os olhos invernosos o mergulho que ele deu na oportunidade. De corpo inteiro, sem aparentar nenhum medo e nem qualquer indício de que pudesse voltar.
Ele estava certo. Depois do impulso da coragem e do prazer do desejo realizado, eu também não voltaria.
A permanência não é instintiva. O ficar precisa conter vontade. Ninguém vai embora só por distração. E nada pode ser mais consciente que o voo de ida.