[a vida invisível]

Hoje eu tenho dificuldade em chorar. Não que as coisas não me emocionem, mas daí até transbordarem em lágrimas, seriam necessárias outras reações.

Na minha vida prática isso não é de um todo ruim. Muitas vezes pareci um arquétipo de filha da dona das águas, precipitando em cachoeira quase tudo o que desviava o curso óbvio do meu rio de emoções.

Não transbordar, no entanto, não significa a ausência de turbulência dessas águas. "A Vida Invisível", por exemplo, foi corredeira caudalosa dentro do meu corpo. Assim mesmo: físico.

Num enredo arrastado por décadas, fui mastigando o sempre amargo pedaço da vida que é a feminina. Não importa o papel: a mãe, a irmã, a amiga - é sempre a ela que estão reservadas as escolhas mais difíceis, as consequências mais duras, as mais penosas punições.

A eles sempre o lugar decisório, ameaçador, arbitrário e impune. Mesmo inseguro e exercendo o controle sob a égide da chantagem emocional, é sempre o macho virtuoso o responsável pela da família e qualquer movimento pela realização do sonho feminino, um escândalo.

Fútil Eurídice.
Maldita Guida.

Mulher de cais, determinada pela ânsia de amar e ser feliz, tornava-se indigna das indeléveis instituições: casamento, família, sociedade.

Duas almas, duas posturas, métodos diversos de perseguir um sonho fracassado: ser feliz.

E assim, de frente para mais de duas horas e algumas décadas de opressão, que certamente aguardaria a cada uma de nós do lado de fora daquela sala, o choro que não me subia aos olhos revirava convulsionante em cada milímetro do meu abdome, como em estado de atenção e alerta, dando o recado certeiro: acomodar-se não é permitido.

[do juízo]

Livrado o flagrante, pôde, enfim, postular-se diante da própria consciência para assumir o delito: sentira saudades. Cabisbaixa, de voz estremecida e contorcendo os dedos das duas mãos como se debulhasse um rosário, admitira o que em outros tempos se definiu por crime.

Sequer esperava o interrogatório: explicava resignadamente cada passo daquele calvário intempestivamente cometido.

Disse que acordara normalmente e lembra-se de ter sorrido diante do espelho enquanto escovava os dentes. Era domingo, o que permitiu um pouco mais de tempo entre as cobertas com o cheiro fresco de lavanda ao qual já se acostumou. Não havia planos e a lembrança veio de súbito. Aprendera desde pequena que as ferramentas que constroem o erro estão quase sempre à mão e cedeu às facilidades.

Em minutos estava entre fotografias e cartas amareladas, embebidas em um perfume antigo, que em nada parecia com a lavanda clara, aquele odor que ousa saudar o dia. E o cheiro não lhe entrava pelas narinas. Reconstituía-se amplo, aguçando outros sentidos, como que “tentando recompor, com tantos estilhaços dispersos, o espelho quebrado da memória”¹. Num instante estavam recolhidas as lembranças, enfileiradas de si, como se em postura militar, dessem satisfação da sua existência, ainda que envoltas em versos perdidos de uma canção que jazia no escuro porão do esquecimento.

Cada detalhe confesso conferia-lhe ares de frieza, mas nada mais eram que puro exorcismo. Precisava desse segundo contato, de ouvir de sua própria boca cada requinte do seu crime, pois era dali que sairia sua sentença.

Não houve sangue, nem qualquer outro vestígio do que fora cometido naquela manhã. Precisava dizer também, em hora da sua confissão juramentada, que não houve lágrimas, tampouco arrependimento. Também não manifestou nenhuma intenção de desculpas ou retratação.

Sabia que seria absolvida. As últimas frases já não sofriam o vacilo da voz e as mãos já repousavam calmas, espalmadas sobre os joelhos. Os olhos fitavam o reflexo do espelho, entendiam com clareza o recado daquele silêncio solícito e eram capazes de prever um novo sorriso.

Estava livre. Inclusive para recair. Na verdade, fez-se lei. Dali em diante estava permitido sentir falta, saudade e até amor, resguardadas as ressalvas que credenciam qualquer legislação que se preze: sem endereço, sem rosto, sem signo zodiacal. Era a saudade ganhando o sonho como sinonímia. Tudo subscrito pela consciência. E confirmado, pelas folhas de calendário que se sucederam.

¹ trecho do livro "Crônica de uma morte anunciada" - G.G.Márquez

[metasaudade]

Se saudade é abstrata Palavra inexata, Essa eu desconheço Pois a saudade da qual padeço Tem corpo, tem peso, Tem gosto de sal. Ora sintagma ...