[reclusão]

Solidão nunca foi problema. Obrigação, sim. Quantas vezes já escolhi o isolamento social como modus vivendi e passei incontável tempo usufruindo plenamente da minha companhia, vendo brotar as flores do ócio decididamente bem cultivado e quando resolvi sair, olhar para as chaves sem lembrar da última vez em que eu havia as feito girar na fechadura. E até aí, problema nenhum.

Mas era meu o controle. Era eu quem acendia as luzes e desligava os alarmes. Aceitava um convite ou criava um evento. E no final, nada mais proveitoso que voltar pra casa com alguma febre que fosse.

Sendo assim, de ordem, é tudo frio, clausura e palidez. A vida parece querer obrigar que eu me limpe de toda a sujeira histórica da humanidade com água e sabão. 

Exaustão e pureza.

Não posso. Quis a conjunção astral que eu vivesse de contatos, de ideias, informações. Elas sobram, transbordam, sufocam, mas não são minhas. São fruto do que o exército recluso e desocupado produz, e que mãos nervosas, ávidas por fazerem parte e certas de que estão fazendo história replicam frenética, repetida e incansavelmente.

É a minha história que eu não escrevo. Não toco corpos, não troco olhares e de tudo o que se diz e se ouve, é noves-fora "cuidado".

O comportamento é adulto, obedece às regras. O sentimento é infantil, tem gosto de castigo injusto, por algo que eu não fiz.

Minha autonomia e independência adormecem empoeiradas sobre o altar que construí para, pedantemente, reverenciá-las. Aguardam cabisbaixas a mão desconhecida que lhes acenderá uma vela capaz de dar luz ao velho - e seguro - caminho da cegueira. 

Para o que os olhos não veem, não há de haver coração.

[spoiler]

Inventasse um outro erro
De cunho proposital
Algo novo, consciente
E outra vez seria igual:
Essa velha história da gente
Dramalhão de roteiro insistente
Preveria o próprio final.

[entre Rubel e a história de um casamento]

Vou perseguindo metas. Já me disseram não ser metas. Não quantifico, logo não posso medir, logo não tenho parâmetro e nem tão logo não poderei avaliar.

Mas eu sinto.

Duelo com a preguiça. Distraio o ócio, meu tão caro ócio. Cutuco a disponibilidade e uma porta entreabre.

Vez ou outra necessito de borracha. A falta de costume exige repensar, refazer. Quem sabe volto a me expor à tinta, cravo nos teclados e convido outros olhos.

Por enquanto eu sinto.
Na verdade, nem sempre.

Sob recomendações de "cuidado, gatilho!", entreguei-me à "História de um Casamento" numa noite de um domingo tedioso, frustrado dos desejos que tive para ele. Aquela sensação-prejuízo de tempo perdido e até de uma solidão espinhenta, persona non grata, diferente da eloquente companheira, sabedora de mim e que é o avesso de qualquer fantasma.

A verdade é que não senti nada.

Aquele amontoado de tempo e de vida perdida mais parecia um lugar-comum, cansativo e óbvio, da natureza de tudo o que é perecível e quase merecido.

O amor perece, fenece, falece. Tranquilo. Alguns poucos soluços, outros tantos lenços e lençóis. E fim.

A cabeça não corresponde.
O coração não responde.

E ainda assim o pensamento não para e o sangue percorre, irriga, oxigena e conduz ao que é necessário e inevitável: o caminho.

O preço das escolhas é alto, mas com o tempo se paga e a minha frieza aguarda até algum troco.

Talvez eu esteja diante de coisas mornas esperando que alguma febre me tome de súbito, me faça delirar e assim justificar alguns devaneios a que eu decida me permitir.

Permito-me - sem perder de vista a lista - a conhecer coisas novas. Rubel canta enquanto escrevo. Mas não passou da febre inicial provocada há algum tempo por "Quando Bate uma Saudade". Ilusão. A saudade ilude. Vive por gerações fincada ao seu lado fingindo-se companhia, tola e pueril, que arranca sorrisos sob a capa de parecer sempre boa, a despeito de tudo.

Venho esfriando deliberadamente para as saudades românticas. Para as lembranças, não. Anoto-as na mente como os bons filmes que já vi. O problema é que aqui e acolá a memória me trai e esqueço que já vi. E lá estou eu entre a sensação familiar e o incômodo de que posso estar perdendo tempo e vida com histórias requentadas.

Às vezes a curiosidade me conduz de novo até o fim. E tem sempre um fim. Isso é certo. Às vezes a sombra gélida me vence e paralisa. Não consigo interromper.

Até o fim.


(janeiro de 2020)

[metasaudade]

Se saudade é abstrata Palavra inexata, Essa eu desconheço Pois a saudade da qual padeço Tem corpo, tem peso, Tem gosto de sal. Ora sintagma ...