Solidão nunca foi problema. Obrigação, sim. Quantas vezes já escolhi o isolamento social como modus vivendi e passei incontável tempo usufruindo plenamente da minha companhia, vendo brotar as flores do ócio decididamente bem cultivado e quando resolvi sair, olhar para as chaves sem lembrar da última vez em que eu havia as feito girar na fechadura. E até aí, problema nenhum.
Mas era meu o controle. Era eu quem acendia as luzes e desligava os alarmes. Aceitava um convite ou criava um evento. E no final, nada mais proveitoso que voltar pra casa com alguma febre que fosse.
Sendo assim, de ordem, é tudo frio, clausura e palidez. A vida parece querer obrigar que eu me limpe de toda a sujeira histórica da humanidade com água e sabão.
Exaustão e pureza.
Não posso. Quis a conjunção astral que eu vivesse de contatos, de ideias, informações. Elas sobram, transbordam, sufocam, mas não são minhas. São fruto do que o exército recluso e desocupado produz, e que mãos nervosas, ávidas por fazerem parte e certas de que estão fazendo história replicam frenética, repetida e incansavelmente.
É a minha história que eu não escrevo. Não toco corpos, não troco olhares e de tudo o que se diz e se ouve, é noves-fora "cuidado".
O comportamento é adulto, obedece às regras. O sentimento é infantil, tem gosto de castigo injusto, por algo que eu não fiz.
Minha autonomia e independência adormecem empoeiradas sobre o altar que construí para, pedantemente, reverenciá-las. Aguardam cabisbaixas a mão desconhecida que lhes acenderá uma vela capaz de dar luz ao velho - e seguro - caminho da cegueira.
Para o que os olhos não veem, não há de haver coração.